Artigo

“Após a cobertura da guerra civil angolana não consegui mais tirar fotos”

O fotojornalista Jean Charles Gutner aterrou em Angola em 1993, para mostrar ao Ocidente o que MPLA e UNITA queriam esconder dos jornalistas internacionais. Com as eleições gerais à porta o antigo repórter lança um livro com fotos inéditas da guerra civil.

Militar das Forças Armadas Angolanas na frente de combate nos arredores da cidade de Caxito, na província do Bengo, em Março de 1993.

créditos: Jean Charles Gutner

Chegou a Angola em Março de 1993 e, de máquina em punho, percorreu o país durante três anos ao serviço das agências noticiosas France Press e AP, observando em primeira mão as sequelas de uma guerra que matou, em 27 anos, cerca de 800 mil pessoas e levou ao deslocamento de quatro milhões de angolanos. Sem se aperceber, tudo o que o francês Jean Charles Gutner foi captando com a sua lente “criou consequências”. No fim, “eu já não estava no mundo real”, confessa. “Após a cobertura do confronto angolano não consegui mais tirar fotos. Ficava horas a olhar lá fora, sem mexer. A alma e a vontade já não estavam presentes, estavam secas.”

Findo o conflito, e depois do adeus à carreira no jornalismo, deixou-se ficar por Angola até 2007. Após regressar à Europa, a ideia de lançar um livro com as imagens que recolheu na terra das palancas foi remexendo dentro de si, com a oportunidade a surgir após o anúncio de que José Eduardo dos Santos não continuaria no cargo de Presidente e que eleições gerais seriam marcadas para Agosto de 2017. O dinheiro para concretizar o projecto, a que deu o nome de "Era Angola", veio através de uma plataforma de financiamento colectivo, com muitos anónimos a darem o seu pequeno contributo.

Quando aterrou em território angolano, em Março de 1993, fazia já um ano que a guerra civil tinha regressado – o conflito teve três fases, com a segunda a estender-se entre 1992 e 1994. Que situações, testemunhadas por si, mais o impressionaram?

"O primeiro evento que me marcou foi em Caimbambo [na província de Benguela], após a minha chegada. Estava a andar na rua quando, de repente, ouviram-se tiros de AK e de outras armas pesadas. Eu assustei-me, mas perto de mim estava uma criança, com cerca de cinco anos, que brincava e não reagia quando as armas disparavam. Ele não se assustava, já estava habituado ao barulho das armas e sabia que os disparos eram nos limites da cidade, um pouco distante de nós.

Outro momento foi a reportagem que fiz com [a força de] Comandos do Governo, durante a tomada da Gabela, cidade do Kwanza Sul, que estava cercada pela UNITA. Fui levado de helicóptero e largado em plena selva, enquanto acompanhava as tropas especiais. Consegui entrar na cidade, mas, passadas várias horas, ao início da noite, a nossa posição foi flagelada pela artilharia da UNITA. Refugiei-me com um jornalista português dentro de um abrigo, para tentar fugir às bombas. Só quando os disparos de artilharia terminaram é que acendemos uma vela, e foi então que descobrimos que estávamos refugiados junto a um stock de munições – um obus até chegou a explodir perto da porta da entrada. Estou agora a rir-me, mas naquele momento deu-me um suor frio.

Também fotografei, durante a retomada do Huambo, os cadáveres dos angolanos afiliados ao Governo, ao MPLA, que foram detidos pelos rebeldes da UNITA e atirados para os tanques de água das casas, amarrados de pernas e braços a fios de ferro. Fiquei também, durante alguns dias, com o cheiro [na cabeça] dos corpos em decomposição que eu fotografei num antigo campo de fuzilamento da UNITA, onde se acumulavam os mortos. O cheiro ficou presente e não me largou por dias. Isto foi em Longonjo, província de Huambo."

Chegou ao país vindo da Argélia, país que também estava submerso num clima de guerra civil. Ao mesmo tempo, a guerra na antiga Jugoslávia preenchia os cabeçalhos dos jornais ocidentais. Porque preferiu cobrir o conflito entre a UNITA e o governo do MPLA?

"Naquela altura, a moda dos fotojornalistas [no Ocidente] era a de ir para a Jugoslávia, e o factor que ajudava muito a isso era a proximidade dos confrontos nesse país com as grandes capitais europeias e a facilidade de acesso à região. Em termos de custos era mais rentável para um jornal ou uma agência de notícias enviar um fotógrafo para aí do que para o outro lado do mundo, sem garantia de trazer algo que podia ser publicado.

Eu decidi que queria cobrir o ressurgimento do confronto em Angola para não ter de seguir, como os outros, a situação na Jugoslávia. Circulavam em França poucas informações sobre Angola. Mas conseguir aceder às zonas de combate levou-me um mês, entre pedidos de acreditação junto da segurança militar [do Governo], a qual controlava, na altura, os acessos da imprensa estrangeira às primeiras linhas da guerra. Era preciso esperar muito tempo para fazer qualquer movimento entre Luanda e as zonas de confronto. Aprendi a ser paciente."

Em que regiões esteve? Era perigoso ir até lá?

"Estive nas províncias do Bengo, Zaire, Uíge, Lunda Norte, Lunda Sul, Kwanza Sul, Benguela, Huambo, Moxico, Huila, Namibe, Cuando-Cubango. Nessa altura, só era possível deslocar-nos por avião ou num helicóptero militar das Nações Unidas. Nada de carros, por causa das emboscadas e das minas terrestre. E, quando íamos, só acompanhados por uma coluna militar."

Sentiu que os dois lados da barricada do conflito não queriam que a imprensa internacional desse a conhecer ao mundo o que estava a acontecer nos palcos de confronto?

"Senti que os jornalitos não eram bem-vindos. Era evidente que ambas as partes não queriam facilitar o acesso às zonas de combate. Para nos deslocarmos até aí era preciso, do lado do governo angolano, acreditação por parte da segurança militar e, mesmo depois disso, era preciso passar pelo Estado-maior da frente de combate das regiões para obter autorização.

Do lado da UNITA, os jornalistas que queriam entrar nas zonas que controlavam precisavam de entrar pelo Zaire ou outro país limítrofe de Angola. Não aceitavam jornalistas correspondentes baseados em Luanda, pelo que era muito complicado obter uma credencial para ir fotografar com eles."

Aposto que passou por momentos complicados, por ser jornalista e andar “armado” com uma máquina fotográfica…

"Vou contar uma pequena história que aconteceu num congresso da UNITA, no Bailundo. Os jornalistas estrangeiros estavam todos presentes para assistir a esse evento, Jonas Savimbi aparece, faz o discurso e recebe os jornalistas, com um momento para os fotógrafos e outro para imprensa escrita. Ao deixar a sala de conferências aproximei-me do carro pessoal do Jonas Savimbi, um Mercedes preto grande, e vejo o motorista dele com as mãos cruzadas no volante, de olhar um pouco perdido. À esquerda dele estava uma pequena bandeira da UNITA e um brinquedo em forma de cão, daqueles em que a cabeça mexe-se quando se abana. Tirei uma fotografia daquela cena, mas ao andar alguns metros aparece-me um segurança do senhor Savimbi, pedindo o rolo fotográfico: eu recuso. Ele mete a mão na pistola, tira a segurança da arma e pede-mo outra vez: recuso novamente, e ele levanta o cão da pistola. Senti que as coisas estavam a complicar-se e entreguei o meu rolo. Mas logo aparece um oficial da UNITA, lamentando o comportamento do segurança, e, após umas horas, devolve-mo. Chego a Luanda, revelo o rolo para enviar para à agência e descubro que foi trocado por outro que não continha fotografias. O simples facto de ter tirado sozinho a fotografia ao carro fez desconfiar a guarda de Jonas Savimbi. A paranóia estava muito presente."

E o que o levou, tanto tempo depois, a lançar este livro de fotografias?

"Achei importante dar a conhecer a uma nova geração a realidade dos anos de guerra que passei em Angola, para que lhes seja possível perceber que a maior melhoria que os angolanos conquistaram foi a paz. Eu sei que a maioria dos angolanos vive em condições extremamente duras, principalmente nas cidades. Conheço as realidades dos pais, a realidade dos musseques, da sociedade fina, dos camponeses: partilhei essa vida durante 14 anos. Mas, seja como for, a paz tem de ser apreciada, e creio que este livro pode fazer pensar sobre o valor real da paz. A preservação da paz e o desenvolvimento de Angola devem ser preocupações comuns e um objectivo claro para os angolanos."

Comentários