Após terem mantido as distâncias em edições anteriores, Hollywood e Cannes voltam a andar de mãos dadas este ano na Croisette, com a presença de Quentin Tarantino e Jim Jarmusch, num ambiente competitivo entre os festivais de cinema. O festival decorre entre 14 e 25 de maio.

O facto de Cannes ter obtido "Rocketman", a biografia sobre Elton John, apresentada fora de competição, "foi uma boa jogada e um passo importante porque a Paramount era historicamente um dos estúdios mais relutantes em levar filmes ao festival", explicou Christian Jungen, jornalista suíço e autor do livro "Hollywood in Cannes".

Outros grandes estúdios também estão presentes, como Universal, com "Os Mortos Não Morrem", de Jim Jarmusch, com um elenco de estrelas, incluindo Bill Murray, Tilda Swinton e Adam Driver; bem como Warner, com a exibição em 4k do clássico "Shining", de Stanley Kubrick.

Com Jarmusch e Terrence Malick ("A hidden life"), Tarantino será o grande protagonista de Hollywood com seu filme "Era uma Vez em... Hollywood", com Leonardo DiCaprio e Brad Pitt. A sua presença também permite que Cannes "comemore a sua própria história gloriosa, 25 anos depois da Palma de Ouro de 'Pulp Fiction'", segundo Jungen.

Sem esquecer Sylvester Stallone, que irá ao festival para apresentar os primeiros minutos de "Rambo V" e uma versão restaurada do seu primeiro trabalho, de 1982, "A Fúria do Herói".

A crítica implacável de Cannes

Rocketman

Thierry Fremaux, delegado do Festival de Cannes, quis destacar o apoio dos estúdios de Hollywood ao apresentar em abril a programação dos filmes selecionados, com palavras de agradecimento em particular a Jim Gianopolus, chefe da Paramount.

Em 2001, como presidente da Fox, Gianopolus permitiu que Cannes fizesse a estreia de "Moulin Rouge".

Os estúdios retornavam assim à maior mostra de cinema do mundo depois de vários anos difíceis. Por exemplo, com grandes produções, muitas vezes fora de competição, como "Matrix Reloaded" e o quarto filme de Indiana Jones.

Mas alguns desses filmes deixaram Cannes com um gosto amargo, sendo alvos de críticas ferozes, como foi o caso de "O Código Da Vinci" e "Han Solo: Uma História de Star Wars", o "spin-off" da saga "Star Wars" apresentado no ano passado.

Outra dificuldade acrescentada a Hollywood é o facto de Cannes acontecer em maio, muito antes dos Óscares no final de fevereiro.

Neste sentido, Veneza e Toronto têm a vantagem de acontecerem em setembro, além de serem festivais que têm ganho peso aos olhos dos produtores e distribuidores americanos, especialmente para filmes autorais.

"Obsessão com o Óscar" e Netflix de fora

Roma

Sintoma desta evolução: Veneza acolheu nos últimos anos "Gravidade", "La La Land", "A Forma da Água" e "Roma", todos posteriormente recompensados com o Óscar de Melhor Filme e/ou Realização.

No ano passado, "BlacKkKlansman: O Infiltrado" ganhou o Grande Prémio de Cannes e, em seguida, o seu realizador, Spike Lee, conquistou o primeiro Óscar da sua carreira.

Mas é preciso voltar a 2012 para encontrar outro filme presente na Croisette e recompensado pela Academia: "O Artista", com cinco estatuetas, incluindo para Melhor Filme e Realização.

Em entrevista ao jornal francês Le Monde, Fremaux criticou recentemente a "obsessão generalizada com o Óscar", sublinhando que "o projeto de Cannes é o cinema mundial, a realização e os autores".

Cannes também trava um braço de ferro com a Netflix, ausente da competição oficial desde o ano passado, devido a uma nova regra que obriga os filmes selecionados a serem exibidos nos cinemas franceses.

Em contrapartida, a Berlinale e Veneza decidiram acolher a plataforma on-line, com o caso emblemático de "Roma", de Alfonso Cuarón, Leão de Ouro na Mostra e vencedor de 3 Óscares, incluindo de Melhor Realização e Melhor Filme Estrangeiro.

A Netflix também não estará presente no Marché du Film de Cannes, um dos maiores eventos anuais da indústria cinematográfica.

Em Cannes, a plataforma aparecerá apenas com o filme "Wounds", que será apresentado na secção independente Quinzena dos Realizadores.

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