Pelos olhos de uma criança, baseada em Noce, cujo pai era um chefe policial vítima de um tiroteio em frente a sua casa, o filme narra os complexos "anos de chumbo" na Itália nas décadas de 1960 e 1970.

O país foi atormentado por inúmeros assassinatos, raptos e ataques a comboios, prédios públicos e eventos políticos perpetrados por grupos armados de extrema direita e extrema esquerda.

"O filme não consegue comunicar a verdade", disse Emilio Monreale, crítico do jornal La Repubblica. "Usa a mesma estrutura dos filmes feitos para a televisão... esse imaginário está desgastado", criticou o jornalista.

Tratar de um tema tão delicado, marcado pela escalada da violência, com sequestros e assassinatos por motivos ideológicos, é tocar numa ferida profunda que aparentemente não foi fechada.

"'Padrenostro' não é um manifesto político, nem tem uma leitura histórica”, defendeu Noce, que quer passar uma mensagem a favor da “reconciliação”.

Segundo o cineasta, contar a sua memória do atentado sofrido pelo pai em Roma em 1976, que destruiu a sua família e desencadeou uma série de medos, foi "uma jornada longa e dolorosa". "Esses factos foram apagados da nossa família por anos", disse.

Uma geração invisível

Através de "Padrenostro", o realizador quis também dar a palavra àquelas crianças que ouviam escondidas na cama os pais a falar sobre o que acontecia e que, atrás de uma porta ou espiando telefonemas, descobriam a realidade.

Para isso, ele reconstruiu o seu próprio apartamento, as roupas, os carros e as ruas de uma Itália que crescia economicamente. “É a leitura de toda uma geração sobre esse passado, para tentar superá-lo”, analisou outro crítico, Adriano De Grandis, no jornal Gazzettino di Venezia.

Os sentimentos do pequeno Valerio, interpretado pelo menino Mattia Garaci, são tão invisíveis quanto os de Christian, um menino de 14 anos que aparece sem explicação na sua vida e o ajuda a superar progressivamente o seu trauma.

"Nós, de 50 anos, somos uma geração que não participou de grandes acontecimentos históricos e ficou encurralada”, resumiu o ator Pierfrancesco Favino, que interpreta o pai e é co-produtor do filme.

“Sentimos a vulnerabilidade dos nossos pais e de alguma forma crescemos com esses medos, com a ideia de que algo nos pudesse acontecer. Com isso a minha infância foi rompida”, confessou Favino, nascido em 1969.

O ex-ministro de extrema-direita Matteo Salvini, que é da mesma geração, esteve na sessão de gala do filme, gesto que gerou polémica.

“Não é um filme que se pode manipular politicamente. Não defende a polícia nem é contra a guerrilha. O que queríamos era contar como foi a nossa infância nesses anos. Essa é a verdadeira mensagem política”, argumentou Favino.

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