O ator britânico Richard E. Grant não podia ter desejado melhor estreia no cinema do que "Withnail e Eu" em 1987.

O papel do protagonista sistematicamente alcoolizado lançou-o justamente numa carreira como ator secundário por todo o tipo de filmes, no cinema "indie" aos grandes "blockbusters" dos estúdios, que inclui "Henry e June" (1990), "Viver e Amar em Los Angeles" (1991), "O Jogador" (1992), "Drácula de Bram Stoker" (1992), "A Idade da Inocência" (1993), "Retrato de Uma Senhora" (1996), "Spice World: O Filme" (1997), "Gosford Park" (2001), "A Noiva Cadáver" (2005), "A Dama de Ferro" (2011), "Jackie" (2016) e "Logan" (2017).

Apesar dos encontros cinematográficos com Philip Kaufman, Robert Altman, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola ou Jane Campion, a única vez que foi nomeado individualmente para um prémio foi como ator secundário nos Razzies (conhecidos como os Óscares dos piores) pelo desastre protagonizado por Bruce Willis chamado "Hudson Hawk - O Falcão Ataca de Novo" (1992).

Isso finalmente mudou com "Can You Ever Forgive Me?" (sem estreia prevista para Portugal), onde interpreta Jack Hock, o cúmplice da escritora transformada em falsificadora literária Lee Israel (Melissa McCarthy).

Nomeado pela primeira vez aos 61 anos para os Óscares, como ator secundário, o ator está a aproveitar o mais possível a intensa temporada de prémios em que está envolvido há meses e tornou-se mesmo uma estrela nas redes sociais pelo genuíno entusiasmo com que tem documentado com a esposa e a filha as movimentações por visionamentos especiais do filme, cerimónias, entrevistas, encontros com as suas celebridades preferidas e os fãs.

Um dos momentos que se tornou viral foi uma fotografia que tirou ao pé dos portões da propriedade de Barbra Streisand, a estrela a quem escreveu uma carta de fã quando tinha 14 anos.

Monstrando o mediatismo proporcionado por estar na corrida aos Óscares, a visada respondeu menos de 24 horas depois e a reação do ator ao telefone quando lhe contaram foi outra sensação.

Uma das razões para tanto entusiasmo é que não há nervos: Richard E. Grant não tem dúvidas que quem vai ganhar o Óscar de Melhor Ator Secundário é Mahershala Ali por "Green Book".

"Acontece todos os anos em que tenho visto cerimónias de prémios, geralmente há um ator que tem a corrida garantida. No ano passado, foram Gary Oldman ["A Hora Mais Negra"] e Frances McDormand ["Três Cartazes à Beira da Estrada"]. Normalmente, há um ator que é como o papa-léguas e simplesmente arrasa tudo por onde passa. Acontece que estou numa categoria este ano e Mahershala Ali ganhou cada um dos grandes prémios. E tão certo como estar agora agora a falar consigo, ele vai ganhar no domingo", contou numa entrevista à Variety.

"Os outros quatro nomeados, temos partilhado isto uns com os outros, sabemos quem vai ganhar, portanto essencialmente aproveitamos isto pelo gozo que proporciona", salienta sobre o grupo que o junta a Adam Driver ("BlacKkKlansman: O Infiltrado), Sam Elliott ("Assim Nasce Uma Estrela") e o vencedor na categoria o ano passado Sam Rockwell ("Vice").

A recompensa, acrescenta, têm sido as propostas de trabalho (como "Star Wars: Episódio IX") e os prémios da associação de críticos.

Can You Ever Forgive Me?

O ator garante que seria uma parvoíce preparar um discurso para a noite de domingo: "O homem que tem de preparar o discurso é o homem que teve de arranjar quatro discursos diferentes para os quatro prémios diferentes que já ganhou. Ele é que tem o dever de arranjar algo de novo, não os outros quatro nomeados".

Quando a entrevistadora lhe diz que "nunca se sabe", o resposta ainda é mais definitiva.

"Sabemos. A lei das médias, se não o ficamos a pensar, as casas de apostas, a internet, os alertas da Google, o mundo diz-nos. Simplesmente não vai acontecer", conclui.