A vitória inédita nos Óscares alcançada pelo filme sul-coreano "Parasitas", do realizador Bong Joon-ho, quebrou 91 anos de tradição em Hollywood e abre uma nova era para filmes coreanos e estrangeiros no primeiro plano do cinema mundial.

“Parasitas”, que conta a história da infiltração de uma família pobre numa casa rica, conquistou no domingo quatro prémios – Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Filme Internacional e Melhor Argumento Original – tornando-se o primeiro filme de língua não-inglesa a levar o principal prémio de Hollywood desde que estes foram criados em 1929.

“O realizador Bong não muda apenas a história cultural sul-coreana, mas também a história de Hollywood”, afirmou esta terça-feira em editorial o maior jornal do país, Chosun Ilbo.

A Academia tem estado “obcecada com filmes em inglês feitos por brancos”, acrescenta, tornando “mais difícil para um coreano ganhar um Óscar com um filme falado em coreano do que ganhar o Prémio Nobel de Literatura”.

Os prémios recebidos por “Parasitas” anunciam a “chegada de uma nova era” e isso gera “um tremendo potencial” para filmes estrangeiros nos Estados Unidos, afirma Gina Kim, professora da UCLA e realizadora de cinema.

Hollywood "continua a prevalecer e domina a indústria cinematográfica mundial", afirma à AFP.

“É notório que não permitia que filmes em língua estrangeira entrassem no seu pátio. Com o sucesso de ‘Parasitas’, isso muda”, salientou.

Após a sua vitória, o diretor sul-coreano disse à imprensa que as pessoas do planeta estão cada vez mais conectadas.

"Assim, um dia chegaremos a um momento em que não será importante se um filme é falado ou não numa língua estrangeira", acrescentou.

Presença crescente

O histórico prémio a Bong coroa o ano de 2019, no qual se comemorou o 100º aniversário do cinema sul-coreano.

A Coreia do Sul possui a quinta maior indústria cinematográfica do mundo e a sua presença tem vindo a crescer nos últimos anos e décadas no circuito de festivais ao redor do planeta.

Em 2004, o filme de ação de Park Chan-wook, “Oldboy”, venceu o Grande Prémio no Festival de Cannes. Além disso, o drama do realizador Kim Ki-duk, “Pieta” (2012), ganhou o Leão de Ouro de Veneza.

O cinema sul-coreano também foi convidado para Hollywood em 2013, com o terror psicológico de Park Chan-wook “Stoker”, com Nicole Kidman e Mia Wasikowska, e com “Expresso do Amanhã”, do próprio Bong, um filme de ficção científica distópico com Tilda Swinton, Chris Evans, Jamie Bell e Ed Harris.

O cinema sul-coreano teve um renascimento nos anos 90, com o surgimento da democracia após décadas de ditadura militar.

O Óscar de Bong “é uma ocasião inesperada para o cinema sul-coreano valorizar todos os talentos que viu nos últimos anos”, observa Jason Bechervaise, professor da universidade sul-coreana Soongsil Cyber.

A receita sul-coreana é, sem dúvida, uma homenagem à liberdade e ousadia dos seus artistas. Em 2007, o ex-presidente Kim Dae-jung havia insistido com o governo: “Ofereça apoio financeiro a artistas, mas acima de tudo nunca intervenha nos seus trabalhos. Assim que o governo interfere, as indústrias criativas quebram”.

O sucesso de “Parasitas” também despertou grande entusiasmo na diáspora asiática da América do Norte, causando grandes reações de alegria pelo autor coreano-americano Min Jin Lee e pela atriz Sandra Oh.

A representação de asiáticos nos filmes de Hollywood “ainda é muito esporádica”, apesar do sucesso em 2018 da comédia romântica “Asiáticos Doidos e Ricos” ("Crazy Rich Asians"), apenas com atores asiáticos, recorda Michael Hurt, sociólogo da Universidade de Seul.

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