«Vitus», do suíço Fredi M. Murer, foi um dos filmes exibidos ontem na KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, a decorrer até dia 29 no cinema São Jorge, em Lisboa.

Retrato de uma criança com um talento acima da média para o piano, foi uma das interessantes propostas da iniciativa, tal como
«O Estranho que há em Mim» ou «Luta de Classes».

Filmes sobre jovens prodígios têm surgido sempre com alguma regularidade, e em alguns casos são material abraçado pelos Óscares e demais premiações, como o comprovam «Uma Mente Brilhante», de Ron Howard; «O Bom Rebelde», de Gus Van Sant; ou «Shine», de Scott Hicks.

Muitas vezes, investem num melodrama duvidoso de tons demasiado agridoces e edificantes, onde as capacidades dos protagonistas os tornam mais em mártires do que iluminados, daí que «Vitus», do suíço Fredi M. Murer, surja como uma aparente lufada de ar fresco ao resistir a alguns lugares-comuns.

Retrato de uma criança com um talento inato para o piano, o filme investe na forma como a sua família vai descobrindo e reagindo aos seus dons, e se os pais o pressionam para que continue a aprimorá-los o avô é menos incisivo, deixando-o à vontade na sua oficina onde pode agir como um rapaz normal.

«Vitus» consegue, ao longo da primeira hora, trabalhar de forma contundente e tridimensional as inquietações que vão dominando o seu protagonista, pois à medida que este evolui no desenvolvimento intelectual (as suas capacidades acima da média vão muito para além da habilidade para o piano) vai sendo cada vez mais ostracizado pelos colegas, sendo incapaz de estabeler elos de ligação com alguém da sua idade.

Para os seus progenitores, contudo, o pequeno Vitus é um concentrado de potencialidades, incorporando o triplo da genialidade que o seu pai, inventor, sempre sentiu possuir mas que não conseguiu aproveitar como ambicionava.

O problema é que, embora o protagonista possua capacidades cognitivas apuradas, emocionalmente não difere muito das outras crianças, e esse desfasamento que os pais parecem ignorar acaba por colocá-lo à beira de um abismo sem soluções em vista.

Murer desenvolve o filme aliando uma consistente densidade dramática a um argumento razoavelmente surpreendente, que não desbrava novos territórios mas também não cai em clichés.

Lamenta-se no entanto o último terço, que contraria a boa impressão até então sedimentada e desfaz quaisquer traços de negrume, oferecendo soluções fáceis e algo implausíveis às personagens.

Os tons realistas do arranque do filme são mais convincentes do que a atmosfera de fábula que domina os momentos finais, e por isso «Vitus» tanto se aproxima de uma séria e inteligente experiência cinematográfica como de uma fantasia pronta-a-agradar.

Ainda assim o elenco, que inclui o veterano Bruno Ganz, defende bem as suas personagens e a realização não compromete, o que ainda torna o filme interessante, embora menos do que se esperaria ao início.

A
KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã exibe dois filmes nos dias úteis e três nos do fim-de-semana, atravessando diversos géneros e geografias.

Além da Alemanha, a programação inclui obras recentes da Áustria, da Suíça e do Luxemburgo.

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