Das fotografias de Mauro Pinto a um bairro de Mafalala em crise de identidade, em Moçambique, às colagens de cascas das fachadas de bairros degradados, da autoria do angolano António Ole, num olhar distópico ao pós-colonialismo em África. Pelo meio, obras de gigantes como Malangatana. Ao todo, são mais de 30 as obras em exposição no município de Oeiras, em Portugal, da colecção “Artistas de Angola e Moçambique”. Uma outra maneira de contar a história dos dois países.

Trabalhos de pintura, escultura e fotografia, a que se juntam colagens e instalações, tudo feito entre 1964 e 2014, do período colonial aos anos de plena independência. Eis o que poderemos ver nas mais de 30 obras da exposição “Artistas de Angola e Moçambique”, patentes no Centro de Arte Manuel de Brito de Algés, no concelho de Oeiras.

De Angola marcam presença as obras de António Ole e Francisco Vidal, duas gerações da arte angolana contemporânea que, em 2015, representaram o seu país na Bienal de Veneza. O contingente moçambicano é mais vasto e inclui nomes consagrados como o de Malangatana, Bertina Lopes e Alberto Chissano, a que se juntam outros três artistas, nascidos na década de 1970, que prometem deixar a sua marca neste novo século: o pintor Celestino Mudaulane; um dos mais recentes e promissores nomes da fotografia, Mauro Pinto; e Gonçalo Mabunda, cuja obra, espalhada por vários museus, o tornou num dos nomes mais reconhecidos da arte moçambicana actual.

Após várias semanas encerrado ao público, o Centro de Arte Manuel de Brito voltou a abrir portas a 14 de Abril, para a inauguração da colecção de Moçambique e Angola, a qual manter-se-á em exibição até ao dia 11 do próximo mês de Setembro.

O colonialismo sob o olhar crítico do artista

Coube à portuguesa Luísa Soares de Oliveira, crítica e especialista em história da arte, fazer a resenha da vida e obra dos oito artistas no catálogo da colecção. Aliás, a vida de cada um dava, por si só, para escrever um livro. Ao fim e ao cabo, não é só a originalidade da arte africana que acaba por estar em destaque, pois cada um dos nomes presentes carrega aos ombros um pouco da história do seu país, dos tempos de opressão do colonialismo à era de liberdade e independência, uma nova época, plena em dificuldades, em que a globalização e a busca de uma identidade africana se misturam.

Malangatana nasceu em Matalana, Moçambique, em 1936, tendo falecido em 2011, na cidade portuguesa de Matosinhos. O início da carreira do que foi o maior artista modernista da cultura moçambicana começou no final da década de 1950, quando o presidente português Américo Thomaz fez uma visita à então colónia de Moçambique. Para se esconder as barracas do bairro do Caniço, por onde iria passar a comitiva presidencial, recorreu-se a “tapumes pintados à mão pelos próprios habitantes”, recorda Luísa Soares de Oliveira, sendo que “nessas pinturas sobressaiu logo um autor, o próprio Malangatana”.

O seu trabalho obteve reconhecimento internacional graças ao seu surrealismo, numa mistura de criatividade e imaginação que brotaram de fora do mundo escolar e académico, com obras onde o ingénuo e o fantástico marcam presença, mas em que é visível “uma condenação praticamente universal da situação política que então se vivia nas colónias portuguesas”. Guerra, repressão e sofrimento, sempre com o povo a carregar às costas estas duras penas, são os temas a que Malangatana mais recorria.

O também moçambicano Alberto Chissano (1935-1995), natural de Majacaze, seguiu a mesma linha de denúncia política, desta vez através da escultura, com a dor do colonialismo a marcar as figuras contorcidas que criava. As pinturas de Bertina Lopes (1924-2012), mulher da cultura moçambicana com raízes em Maputo, faziam igualmente eco da dura luta pela independência. Com uma obra mais erudita, a pintora introduziu a característica étnica, reflectido uma abordagem à “questão identitária”.

Malangatana, Chissano e Bertina fazem parte de uma geração que deixou a sua marca fora do seu país-natal, mas todos eles beneficiaram da “existência em Maputo de uma comunidade artística aberta à inovação e pronta a acolher e incentivar os jovens artistas”, salienta a historiadora portuguesa.

Em busca do “ser” africano

Saltemos vários anos, até à década de 1970, altura em que nasce uma nova geração de artistas moçambicanos que já só conhece um país independente e libertado das amarras coloniais. Tanto o ceramista e pintor Celestino Mudaulane, como o escultor Gonçalo Mabunda, procuram uma identidade e raiz africana numa era (o mundo de hoje) marcada pela amálgama da globalização.

Um destaque para o fotógrafo Mauro Pinto, vencedor do Prémio BES Photo 2012 devido ao projecto fotográfico “Dá Licença”, com as suas fotografias do tradicional e mítico bairro de Mafalala, na periferia de Maputo (foi na capital que o artista nasceu), de onde poetas, desportistas e políticos partiram para marcar o mundo moçambicano. As suas fotografias, algumas delas presentes no Centro de Arte Manuel de Brito, revelam-nos um subúrbio pobre mas onde a identidade moçambicana se encontra bem vincada. Contudo, essa mesma identidade, com as suas tradições, está a perder-se, à medida que novas pessoas, vindas de outras culturas, aí se juntam, apagando as velhas características do bairro.

De Luanda aos subúrbios de Lisboa

António Ole (Luanda, 1951) e Francisco Vidal (Lisboa, 1978) compõem o duo de angolanos da colecção. Símbolos de diferentes gerações, António Ole é uma “referência obrigatória quando se fala da arte contemporânea angola”, frisa Luísa Soares de Oliveira. As suas instalações alusivas a fachadas, tapumes e muros de bairros degradados chamaram a atenção do mundo artístico internacional, servindo de janela para o passado e presente de Angola. Duas das suas três peças, presentes na exposição, fazem precisamente isso da forma mais curiosa: estamos perante cascas de fachadas de bairros degradados, pedaços coloridos com tinta ressequida e antiga, marcas degradadas de um passado colonial que ainda hoje se mantém presente.

“Tudo na sua obra se afasta voluntariamente da tradição académica das belas-artes europeias para enunciar as premissas de uma arte que acompanha a par e passo a distopia pós-colonial dos países africanos”, acrescenta.

Por fim, temos Francisco Vidal, jovem artista influenciado pelas expressões artísticas típicas dos subúrbios de Lisboa, onde a africanidade é uma marca etnicamente e sociologicamente muito presente.