O paternalismo com que na Europa se olha para o continente africano e muitos países asiáticos, devido às situações de pobreza extrema que aí se vivem, faz desviar o olhar para o que de mais rico os seus povos e culturas têm para oferecer: a generosidade, a capacidade de luta e entreajuda. Palavras que, num Ocidente individualista e em crise, parecem gastas, com os seus acelerados ritmos de vida e uma atenção desmesurada para o que é secundário.

Foi precisamente esse outro lado, o quotidiano das pessoas que lutam para sobreviver a cada dia e que valorizam o importante em vez do acessório, que o fotógrafo português Indi Nunez tentou procurar e captar, mostrando uma realidade a que muitas vezes não se dá o devido valor. Pelo meio, Piera Moreau, angolana de nascimento (mas com ADN francês e italiano), ficou enfeitiçada pelas imagens cruas que Nunez obteve, o que a levou a fazer todo um trabalho de ilustração assente nas mensagens, explícitas e implícitas, que as suas fotografias transmitem.

O resultado está agora exposto na Casa de Angola de Lisboa até ao fim do dia 5 de Novembro, uma mostra, baptizada de “FragMENTES”, onde se juntam dois tipos de arte. Quer um exemplo daquilo que pode ver? Pegando em duas fotografias do português, cada uma com os seus diferentes cenários e personagens, a angolana criou uma imagem, pintada à mão, que funde as duas realidades captadas pela lente da máquina. São misturas e interpretações subjectivas que a fotografia, com a sua objectividade e uma narrativa muito própria, não é capaz de transmitir. Noutros casos, Piera Moreau materializa (força) para a tela as ideias e sentimentos que as imagens de Indi Nunez, apesar de não mostrarem, transmitem.

O que os seduziu e levou a querer mostrar, seja por fotografia ou ilustração, lugares tão diferentes e distantes daqueles a que estamos habituados a ver na Europa?

Indi Nunez: Tudo começou com a necessidade de procurar a minha solitude, de fazer uma pausa na minha vida ocidental, porque senti que estava a chegar ao limite do stress, da frustração. Tinha de viajar, aprender e apreciar as coisas que o mundo tem para nos dar. Foi assim que comecei a retratar as vivências e histórias das pessoas que encontrei. Comecei pelos Camarões, em África, e depois fui até ao Sudoeste asiático, passando pelo Camboja, Vietname, Laos e Tailândia.

Piera Moreau: Quando vi as fotografias do Indi, senti que falavam comigo e que tinha de fazer algo com elas. As pessoas que ele fotografou atravessam dificuldades que as podiam fazer parar e desistir. Mas não o fazem. Face às condições em que subsistem é incrível como resistem, como tentam construir um mundo novo a cada dia.

Mas em comparação com os europeus ou os norte-americanos, o que têm elas que estes últimos não possuam?

Indi Nunez: No Ocidente deixámos de saber o que é importante. Não conhecemos a luta das famílias com que me deparei, o quão verdadeiramente custa o seu dia-a-dia e ter comida na mesa.

Piera Moreau: As pessoas destes países têm uma rede de apoio maior, um intercâmbio humano mais rico que no Ocidente. Só assim conseguem existir. Aqui, na Europa, é diferente, pois cada um tenta depender apenas de si, isto desde que tenha um trabalho. No locais que surgem retratados nas nossas obras já é diferente: as pessoas que aí vivem dependem de um vizinho que seja capaz de dar-lhes farinha quando ela faltar, ou de alguém próximo que empreste o carro para a levar da vila ao hospital. Se eles não tiverem esta rede de apoio, então a sua sobrevivência fica em perigo.

Indi Nunez: É preciso frisar que nestas regiões encontrei as pessoas mais humildes, generosas e simpáticas que alguma vez conheci.

A Piera, a certo momento da sua vida, veio estudar e trabalhar para a Europa. De que sente mais falta?

Piera Moreau: Vivi em Angola até aos 16 anos, e os dez anos seguintes foram passados na Europa. Angola é um sentimento. As pessoas de lá representam muito para mim. Quando aí estive contentavam-se com tão pouco, o que é diferente daquilo que se vê na Europa. Por exemplo, quando era criança o nosso brinquedo favorito era encher com areia uma lata vazia de Coca-Cola, ou então fazíamos corridas só para ver quem chegava mais longe. Para a realidade europeia este tipo de brincadeiras tornou-se impossível. Aqui, já ninguém brinca assim.

O Indi perfilha essa mesma nostalgia, a memória de um passado mais simples e que, ao mesmo tempo, não deixava de ser rico. Nos lugares por onde passou, em África e na Ásia, voltou a reencontrar essa simplicidade. O que sentiu quando regressou à Europa?

Indi Nunez: Foi assustador! Voltei aqui e dei de caras com ameaças de bomba, com o terrorismo, com as pessoas a quererem fazer mal umas às outras.

Mas isso também acontece fora do Ocidente, inclusive nas regiões por onde passou e fotografou…

Piera Moreau: Nas zonas remotas, fora das grandes cidades [precisamente aquelas que o Indi Nunez visitou], tal coisa não existe. Para quem aí vive trata-se de algo que lhes é exterior, não existe no seu seio. As pessoas da mesma aldeia não fazem mal entre si. Mas aqui na Europa, nas cidades, sucede o contrário. No mesmo prédio onde vives podem estar pessoas que te fazem mal todos os dias.

Indi Nunez: O objectivo das minhas viagens também passava por mostrar a pobreza em que viviam as pessoas que fotografava, as necessidades que tinham. No entanto, acabei por receber em troca o oposto do que encontrava. Pessoas que tinham tão pouco, com tantas necessidades básicas, conseguiam ser felizes e generosas. Já na sociedade ocidental, em que eu vivo, tudo nos preocupa e tudo nos faz sentir tristes.

Olhando para o futuro, que planos têm na cabeça?

Indi Nunez: Já tenho agendada uma viagem até à Guiné-Bissau, onde estarei durante um mês, com passagem pelo Senegal e a Gâmbia. É uma viagem que tem em vista a próxima exposição, a qual, em princípio, também será feita em conjunto com a Piera. É uma parceria que está a resultar, pois o trabalho dela complementa muito bem o tipo de fotografia que eu faço. Contudo, aquilo que fizemos até agora é somente um fragmento do que queremos fazer e mostrar.

Piera Moreau: Sinceramente, eu só estou à espera que alguém descubra o meu talento e financie os materiais que preciso usar [risos]. Depois disso… espero começar a fazer coisas incríveis!

Exposição FragMENTES na Casa de Angola em Lisboa

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A exposição FragMENTES é a primeira iniciativa de divulgação de novos artistas que a revista online BANTUMEN deu a conhecer ao público. A conceptualização do evento esteve a cargo da FUBA, agência de consultoria que opera na área da comunicação e da curadoria de talentos angolanos. Esta mostra surge ainda de uma parceria com a empresa de organização de eventos Bad Company.

Piera Moreau, 26 anos, "tem ADN italo-francês mas nasceu em Angola, tendo estudado Artes na International School of Aberdeen, na Escócia, mas o seu espírito aventureiro levou-a até Paris, onde estudou Arquitectura”, refere a organização da exposição através de comunicado. “A arte é parte integrante da sua mente, onde liberta um mundo de fantasia inspirado na realidade. Os trabalhos realizados por Piera são uma mistura de estilos, onde predomina a utilização de marcadores, guaches, acrílico, pastéis e colagem.”

Já Indi Nunez, 30 anos, “é um jovem português que começou a dar os primeiros passos na fotografia no mundo da música”, surge descrito. “A cultura urban, através do movimento hip hop, foi a primeira a reconhecer a visão e o talento fotográfico de Indi. Actualmente, Indi percorre o mundo à procura de novos olhares onde a realidade de uns é a utopia de outros. Depois de uma temporada no continente asiático, o fotógrafo vai partir em direcção à Guiné-Bissau em mais uma viagem em que a máquina fotográfica será a sua única companheira.”

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