A escritora chilena e norte-americana Isabel Allende, residente nos Estados Unidos, foi a convidada para o painel de abertura da 14.ª edição do Festival Literário LEV – Literatura em Viagem, que se realiza em Matosinhos e que este ano decorre por videoconferência, devido às restrições impostas pela pandemia de COVID-19.

Numa conversa virtual com os leitores, moderada por Helder Gomes, a autora de “A Casa dos Espíritos” começou por falar sobre a importância das viagens e dos lugares na sua vida e na escrita, e exemplificou com uma viagem que fez à Índia.

“Depois da morte da Paula [filha da escritora] estava metida numa caverna interior e a viagem ajudou-me a sair e foi muito inspiradora”, recorda, assinalando que, nos seus livros, há um “forte sentido de lugar e tempo” e que todas as viagens que fez aparecem nos seus livros.

Para isto terá contribuído o facto de toda a vida se ter sentido estrangeira em todos os lugares onde viveu, apesar de todos terem sido importantes, mas não lhe permitiram desenvolver um sentimento de pertença suficientemente forte.

Isabel Allende nasceu no Peru, onde o seu pai se encontrava em trabalho, mas tem nacionalidade chilena, onde viveu alguns anos, antes de passar pelo Líbano, pela Venezuela e pelos Estados Unidos, onde reside desde 1989.

O país a que sempre prefere voltar é o Chile, mas confessa-se “muito feliz” por viver na Califórnia.

Sobre a forma como vê a América Latina a partir da Califórnia, assume que a vê melhor do que nos anos de 1970, em que muitos países viviam sob ditaduras militares e tinham movimentos guerrilheiros, ao passo que hoje são governos democráticos, ainda que haja corrupção, crises económicas e governos que não servem a população.

Ou seja, “está melhor, mas continua a haver problemas graves: Vivo na Califórnia e na fronteira com o México há acampamentos de refugiados, milhares e milhares de pessoas, sobretudo mulheres e crianças, pedindo asilo político porque vêm de países onde não se pode viver, por causa do crime, do narcotráfico, da pobreza e da corrupção, que são tão graves que não se pode viver. As pessoas procuram refugio porque estão desesperadas, e esta é a situação hoje na América Latina”.

Sobre a perspetiva que tem, ainda enquanto residente nos Estados Unidos, da situação da pandemia de COVID-19 naquele país, Isabel Allende foi perentória: “Muito mal, porque não há um governo competente”.

“Há um governo dirigido por Trump, que se caracteriza por inconsistência, incompetência e mentira. Já há mais de 80 mil mortos, muito mais do que na guerra do Vietname, há mais mortos pelo vírus do que por todas as guerras que tiveram os Estados Unidos”, afirmou.

A escritora ressalvou que os governadores de cada Estado procuram outras soluções, mas “a solução tem de vir do governo federal e neste caso não há em quem confiar”.

No entanto, reconheceu que a sua situação é “privilegiada”, uma vez que vive num Estado com um governador que considera bom, e numa boa casa, situada em cima da água.

“Por mim tudo bem, mas as pessoas estão a sofrer muito, sobretudo os latinos, a maioria sem documentos, que estão sem trabalho e sem seguro”, por isso sem acesso aos serviços de saúde, afirmou.

Numa referência ao peso da família em alguns dos seus livros, como “A casa dos espíritos”, e respondendo à questão se a família se sobrepõe sempre à política, Isabel Allende afirmou que depende da família, lembrando que, na época do governo socialista de Allende, e depois do golpe militar, na ditadura, houve famílias que se dividiram e nunca se reconciliaram, mas também houve as que permaneceram unidas, mesmo com divergências ideológicas e politicas.

“O mesmo se passa hoje nos Estados Unidos com a polarização entre democratas e republicanos, a ideologia e a raiva política às vezes é tanta que altera a família”, disse.

Em “A Casa dos Espíritos”, “há o micromundo da família e o macromundo de um país que parece o Chile, e o que se passa dentro da família é um reflexo do que se passa fora também, a situação política e histórica do pais”, acrescentou.

Aludindo às suas várias facetas - mulher, feminista, filantropa e escritora – e sobre o facto de certa vez ter afirmado que o seu maior feito não era escrever mas amar, Isabel Allende foi questionada sobre o que era mais importante na sua vida.

“Ser escritora é a minha vida pública, amor é o que sinto pela família. A ação não é o mesmo que o sentimento. Não tenho de escolher. Posso ser escritora, mulher, feminista e filantropa e viver o amor intensamente”.

Sobre o amor, falou da família, sobretudo sobre a morte da sua filha Paula.

Isabel Allende contou que a filha morreu após um ano em coma, e que esse ano foi “uma longa noite negra”, em que todos os dias eram iguais, e que depois da sua morte sentiu “um vazio enorme”.

Foi então que começou a escrever “Paula” e “dia a dia, lágrima a lágrima” foi percebendo o que aconteceu nesse ano, foi separando os acontecimentos e isso ajudou-a a perceber e a aceitar que a morte era a única solução.

A escritora falou também sobre o seu processo criativo, assumindo que é muito disciplinada e separa um “tempo sagrado” para a escrita, confessando alguma superstição, pois começa todos os livros no dia 8 de janeiro, data em que começou “A Casa dos Espíritos”, livro que lhe granjeou sucesso. Por isso marcou aquela que seria a data para começar todos os livros, para lhe dar sorte.

O próximo projeto em que está a trabalhar, e que deverá ser publicado em Espanha e em Portugal em novembro, é um livro de não-ficção, é um livro de memórias da sua vida, como mulher e feminista, e chama-se “Que queremos las mujeres”, revelou a autora.

Questionada sobre a importância da espiritualidade na sua vida, uma vez que está tão presente na obra, Isabel Allende afirmou que não é uma pessoa religiosa. Confessou mesmo que lhe dão “horror todas as instituições religiosas, porque são dogmáticas, machistas e procuram o poder”.

A espiritualidade que tem é aquela “parte que todo o ser humano tem, que se busca transcender, que busca a ética", e isso “há que cultivar”. E é o que cultiva “na vida e na literatura”.

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