“Sempre que ia a exposições ou via premiados do World Press Photo e me deparava com as imagens da caça furtiva, achava que havia algo ali de muito errado”, conta ao SAPO Danielle da Silva, fundadora da Photographers Without Borders e premiada e aclamada internacionalmente, no Exodus Aveiro Fest, realizado recentemente pela National Geographic, no norte de Portugal.

“Todos os fotógrafos que conheço querem seguir as unidades anti-caça furtiva, seja na África do Sul, em Moçambique, mesmo só seguindo a unidade militarizada, isto fica bem na câmara. Vejo sempre mãos negras algemadas, pessoas armadas e comecei a pensar porque existe sequer a ideia de caça furtiva, como começou, porque existe este sistema e por que motivos se caça?”.

Foram estas as premissas que levaram Danielle da Silva a questionar o sistema, a romper estereótipos e mudar o foco para uma realidade a que não estamos tão habituados a enquadrar – “Não estamos a olhar para o consumidor final nem para o sistema que criou isto”.

Danielle da Silva
Danielle da Silva no Exodus Aveiro Fest créditos: Pedro Cardoso

Nascida no Canadá e filha de mãe portuguesa e pai indiano, Danielle teve presente desde cedo as questões da colonização e a facilidade de olhar e perceber os vários contextos de cada tema. “Não interessa se foi há muito tempo ou não”, dispara.

“Antigamente, as pessoas viviam em harmonia com a terra, eram guardiões da terra, tinham as suas línguas e a forma de viver. Quem criou as reservas naturais, quem ergueu redes ou a ideia de animais como troféu? Quem rompeu a ligação das pessoas da sua forma de vida e da ligação à terra?”

“Temos de parar de tirar fotografias a estas pessoas, algemá-las e perpetuar a narrativa” afirma ao SAPO e sublinha-o como documentário “Beyond the Gun”, filmado durante Março do ano passado na África do Sul.

O outro lado da caça furtiva
créditos: Damari McBride

Tudo começou com o convite da Norish , uma ONG sul-africana dedicada às comunidades e à educação ambiental, para a Photographers Without Boards documentar o trabalho que estavam a desenvolver localmente.

Inicialmente, o fotógrafo americano Damari McBride, que tinha muito interesse por estas questões e sensibilidade para estes contextos, foi o responsável por abrir portas, para ir documentar a história e conhecer a comunidade.

Depois, juntaram-se ao terreno Danielle da Silva e David Coulson. “Estivemos um mês a viver numa aldeia, numa tenda, estivemos muitos dias sem câmaras apenas a conhecer as pessoas, ouvir as suas histórias”, explica Danielle. “Só depois falamos no documentário e quase todos quiserem testemunhar.”

“Há pessoas que caçam os rinocerontes e não tiram os chifres, muitas vezes cortam o pénis ou fazem outras mutilações ao corpo. Isto é uma forma de protesto contra as unidades militarizadas, como se quisessem dizer: ‘fazem mais pelos rinocerontes do que por nós’.”

Neste sentimento de injustiça, em que poucos olham para lá das armas mas muitos apontam dedos, Danielle explica de uma forma simples: “Ganhar um milhão de rands num dia por caçar um rinoceronte versus ganhar duzentos num trabalho quase escravo num sistema com ainda muitos vestígios do Apartheid... O que vais fazer?”.

E é aqui que entra a Norish, que ajuda os jovens a reconectarem-se com a Natureza, vão com eles para safaris e ensinam sobre florestas, animais e ambiente. “Acima de tudo, é uma forma de abrir oportunidades, para terem a liberdade de escolher uma profissão em que possam sentir-se úteis ao sistema, seja ser ambientalista, médico, professor…”.

“Algo tem de mudar”

“Tive o privilégio de me sentar com um dos responsáveis de uma unidade anti-caça furtiva e depois de uma longa conversa ele teve a humildade de dizer que percebeu tudo mal. Para mim, o que interessa é isto: olharmos para nós e fazermos com que algo possa mudar.”

“Aprendi há muito tempo que as melhores mentes do mundo são aquelas que têm a capacidade de mudar”, diz-nos Danielle, que também ela, através das suas imagens, acaba por dar destaque a quem muitas vezes não tem espaço para contar o seu lado da história.

O documentário pode ser visto aqui.

O outro lado da caça furtiva: Danielle da Silva muda o foco para ver “além das armas” na África do Sul
créditos: Damari McBride

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