As filhas e os filhos de militares portugueses que participaram nos três teatros da guerra portuguesa em África (Angola, Guiné-Bissau e Moçambique), sentem-se “incompletos” e “meias pessoas”, um “limbo” que ainda, 45 anos depois, é um dos últimos tabus para os pais, anónimos, e alvo de estigmatização para os “órfãos”.

As ideias estão lançadas e postas à discussão no livro “Furriel Não É Nome de Pai”, da jornalista portuguesa Catarina Gomes, publicado pela editora Tinta da China, que conta vários episódios sobre os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial (19761/74), cujo número é totalmente desconhecido.

“É um sentimento de puro abandono. A ideia de se viver com um pai anónimo, que é um português, um português militar, cria nestas pessoas um ressentimento, uma mágoa, mas, ao mesmo tempo, alguns deles põem-se a imaginar que, se calhar, o pai não soube que nasceu, que deixou a mãe grávida - nalguns casos era verdade. Mas acredito que, na maioria dos casos, os homens sabiam que as tinham deixado grávidas”, defende Catarina Gomes, em entrevista à agência Lusa.

O tema é ainda pouco falado na sociedade portuguesa e apenas num blogue – Luís Graça e Camaradas da Guiné - se aflora o assunto, numa “espécie de caserna virtual” em que o assunto é abordado “só por homens”, quase secretamente e em forma de “graçola”, subordinado ao tema “filhos do vento”.

“Encontrei ali uma discussão a que eles chamam ‘caserna virtual’, é um assunto de homens e, para mim, enquanto mulher, entristece-me. E entre eles, é quase graçola, para alguns, é uma gabarolice de um passado viril da juventude. Alguns, provavelmente, terão problemas de consciência, muitos não terão”, sublinhou a autora.

“É uma espécie de uma coisa que ficou lá para trás e que já não interessa muito, e que ainda é tabu, sobretudo porque muitas destas famílias, destas mulheres [portuguesas], não sabem que [os maridos então militares] deixaram filhos. Os homens, já com 60, 70 ou 80 anos, não falam disso nesta, porque, na recta final da sua vida, têm medo que as suas mulheres os ponham contra a parede”, acrescentou.

No entanto, se há eventuais problemas de consciência naqueles militares que combateram na guerra colonial, a situação dos filhos é um vazio e um desânimo.

“Estas são pessoas já com 40 ou 50 anos, mas quando falam destes pais parece que voltam a ser crianças, porque choram. Choram porque se sentem abandonados, dizem que se sentem incompletos, que se sentem meias pessoas”, afirmou Catarina Gomes.

“Muitas vezes, a única coisa que eles sabem destes homens, destes portugueses, é a patente e o apelido. Muitas vezes nem é verdadeiro ou foi deturpado pelo passar dos anos. Muitas vezes, há até uma espécie de sebastianismo parental. Eles acreditam que um dia o pai vai chegar”, acrescentou.

Para Catarina Gomes, a maior parte dos “filhos do vento”, já na meia idade, vive “profundamente triste”, uma vez que foi “profundamente estigmatizada” a seguir à independência e continuam a sê-lo ainda hoje.

“Na Guiné-Bissau chamam-lhes ‘restos de tuga’, como se fossem restos do colonialismo, restos da guerra, restos de homens. Estão aqui numa espécie de limbo: não são guineenses, não são portugueses, estão aqui, como dizia um deles, ‘no meio da barcaça’”, acrescentou Catarina Gomes, filha também de um ex-combatente.

Para escrever o livro, que tem por base duas reportagens sobre o tema saídas há alguns anos no jornal português Público, bem como deslocações à Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, Catarina Gomes explicou que o tema surgiu a partir da curiosidade que, em casa, ouvia as histórias de guerra contadas pelo pai.

Essa “curiosidade” levou-a a lançar o seu primeiro livro em 2014 “Pai, Tiveste Medo?”, em que descreve a forma como o tema da guerra colonial chegou à geração dos portugueses filhos de ex-combatentes.

Daí à questão do envolvimento dos militares com mulheres durante o conflito em África – é recorrente na História de Portugal – foi um passo de quatro anos, em que entrevistou dezenas de descendentes, a maior parte deles na Guiné-Bissau e em Angola, uma vez que não encontrava nada escrito sobre essa realidade.

Através de um contacto, curiosamente o de uma filha de um ex-combatente e de uma mulher guineense que vive em Portugal com o pai, chegou a outras pessoas e, no quadro de uma reportagem para o Público, em 2015, chegou à Guiné-Bissau e o que encontrou, disse à Lusa, “foi avassalador”.

“Levava quatro contactos e, passado algum tempo, havia uma espécie de fila de espera, tinham de esperar por nós, para poderem contar a sua história, a quererem encontrar o seu pai português. Não sabiam quem era, muitas vezes sabiam só o apelido, e começou aí”, concluiu a actual jornalista “freelance”, natural de Lisboa, onde nasceu em 1975.

Com as reportagens sobre os filhos de ex-combatentes portugueses em África, Catarina Gomes venceu o Prémios Gazeta (multimédia), o Prémio AMI – Jornalismo Contra a Indiferença e o Prémio Internacional de Jornalismo Rei de Espanha.

Catarina Gomes é mestre em Ciências da Comunicação na London School of Economics and Political Science.