Selma recebe o SAPO na FNAC Chiado, no centro de Lisboa, em Portugal, onde está radicada há trinta anos e onde foi construindo o seu percurso musical. Falámos no sábado, horas antes do concerto de lançamento do seu primeiro álbum, oito anos depois de ter decidido “comprometer-se com a música e ser cantora”. Para trás, deixou a Engenharia e a ideia de construção começou a ganhar alicerces através da música.

O percurso na busca de uma identidade musical foi longo. Cantava nos WrayGunn (banda portuguesa que mistura o rock, gospel e blues com influencias de funk e hip-hop) e fazia tributos a Nina Simone. Teve várias participações com artistas de renome e actuou em múltiplos palcos portugueses e internacionais.

Em 2014, conhece Alcides Nascimento, cantor cabo-verdiano e programador do bar lisboeta de música africana B.Leza , que a desafia a fazer uma homenagem a Miriam Makeba – “uma referência em paralelo com Nina Simone”.

Foi ele que lhe deu o mote para vir buscar as suas raízes e que contrariou o embaraço de Selma. “Queria aproximar-me da música moçambicana, mas sentia que não tinha muita legitimidade. Vivia em Portugal desde 1988, apesar de os meus pais viverem em Moçambique, de visitar com regularidade e de me sentir próxima do país, sentia que não tinha a mesma legitimidade do que quem vive em Moçambique para fazer música moçambicana. O Alcides ajudou-me a tirar as camadas da vergonha e a entender que as minhas variadas sonoridades também podiam ser enriquecedoras.”

A partir daí, o caminho estava traçado e Selma Uamusse foi recordar as sonoridades da música tradicional, que ouvia já desde criança com os pais em Maputo, procurou instrumentos, sons, dialectos e pessoas que pudesse reunir e transformar em música as mensagens, espiritualidade e ritmos que traz consigo.

"Changana com sotaque tuga"

Xenei Yonaguni, dos Timbila Muzimba, e Isabel Novella foram algumas das pessoas que a ajudaram nesta busca às raízes. Aprendeu chope e changana com eles e, "mesmo com sotaque tuga", perdeu o preconceito. "Se canto em russo e latim, porque não haveria de cantar em dialectos? São quase mágicos, muito bonitos e com um som muito particular", afirma a cantora orgulhosa do património cultural do país.

Em 2014, Selma Uamussse veio gravar um disco a Moçambique com muitos artistas nacionais. “O disco estaria dentro da uma etiqueta mais afro-jazz e eu queria algo mais além dessa sonoridade, algo que me fizesse sentir mais completa.” Não satisfeita ainda, volta ao B.Leza, mas desta vez com um reportório próprio e na procura da sua sonoridade mais fiel.

Queria dar uma roupagem à minha música com uma outra dimensão, com instrumentos tradicionais, com dialectos moçambicanos, mas queria electrónica, queria gospel e outros registos. Gosto de trabalhar na versatilidade tímbrica da voz e sabia que em modo banda, sozinha, não ia conseguir. Tinha muitos concertos e corriam bem mas não conseguia encerrar a música num modo físico, num disco.”

Tudo mudou quando encontrou Jori Collignon, o produtor de “Mati”, álbum pronto há um ano e “envolto de pessoas que se apaixonaram pelo projecto”.

Mati

Selma confessa-se “muito feliz com o disco”. É um disco muito versátil, com energias muito diferentes, com mensagens de luta, de espiritualidade, de positividade. E muito amor, apesar de destacar que “o disco não tem nenhuma canção romântica”.

Afirma que a sua missão enquanto cantora “é trazer uma mensagem de gratidão e de esperança, uma fé activa de quem quer meter as mãos na massa, sempre num sentido de união e de comunidade”. E foi mesmo com a última música do disco “Mati”, intitulada “Hope” (“Esperança” em português), que abriu o concerto na FNAC Chiado. A sala estava cheia e o público sossegado não demorou muito a deixar-se contagiar pela energia da dança e da voz de Selma Uamusse.

Funkier than a Mosquito’s Tweeter” celebrizado por Nina Simone fez o público subir ao palco e dançar. Já embalados nos ritmos moçambicanos, em "Ngono" foi Selma quem desceu e cantou e dançou com o público, o tema com que encerrou o concerto.

Mati” está à venda desde sexta-feira em Portugal mas já passa há mais tempo nas rádios moçambicanas. A cantora sente-se muito feliz por a sua música ser partilhada no seu país, onde também gostava de apresentar o disco, e vai estar em Dezembro em Maputo com alguns discos “para passar a palavra”. Diz-se muito feliz por a sua música chegar a Moçambique, ela que sonha levar os ritmos de Moçambique ao mundo.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.