Dois megaconcertos com atuações sucessivas de estrelas globais, em dois estádios - Wembley, em Londres, e John F. Kennedy, na Filadélfia - marcaram um capítulo incontornável na aliança entre a música e causas humanitárias.

Visto por cerca de 2 mil milhões de espectadores, através de uma transmissão televisiva que se disseminou pelo mundo, em mais de 100 países (incluindo Portugal, através da RTP), o Live Aid angariou cerca de 83 milhões de euros destinados a combater a fome na Etiópia, país particularmente fragilizado pelo regime do ditador Mengistu Haile Mariam.

Queen, Rolling Stones, David Bowie, Tina Turner, Madonna, U2, Elton John, Phil Collins, Led Zeppelin, Bob Dylan, Eric Clapton, The Cars ou Duran Duran foram algumas das grandes estrelas da música que se reuniram no evento idealizado por Bob Geldof e Midge Ure.

Antes do espetáculo que ficou entre os mais memoráveis da década, a dupla já tinha criado a canção natalícia solidária "Do They Know It’s Christmas", através do projeto Band Aid, que convocou George Michael, Bono, Sting ou Spandau Ballet em dezembro de 1984. Boy George, que também participou juntamente com os Culture Club, acabou por sugerir a Geldof que desse seguimento nos palcos ao alerta dessa colaboração, centrado na urgência do combate à fome, um flagelo que ameaçava cerca de sete milhões de pessoas na Etiópia.

Band Aid - "Do They Know It's Christmas?"

Meio ano depois, a ideia concretizou-se e Geldof, até então conhecido num círculo relativamente restrito como vocalista dos irlandeses Boomtown Rats, tornou-se a face global de um compromisso da indústria musical com causas humanitárias. Mas não foi a única: poucos meses depois de "Do They Know It’s Christmas", o mundo ouviu "We Are the World", canção composta por Michael Jackson e Lionel Richie que respondeu ao apelo do ativista jamaico-americano Harry Belafonte.

A recolha de fundos desse êxito, entoado por nomes como Stevie Wonder, Bruce Springsteen, Cyndi Lauper e dezenas de outros, também visou lutar contra a fome no continente africano. O nome do supergrupo daí resultante era, de resto, USA for Africa, e subiria ao palco no final do Live Aid com uma reunião atípica que marcaria gerações.

USA for Africa - "We Are the World":

Apesar do forte impacto mediático de um evento sem precedentes, tornado global anos antes das possibilidades trazidas pela internet e redes sociais, não faltou quem apontasse que os resultados solidários ficaram aquém das ambições. Grande parte dos medicamentos, roupas ou alimentos conseguidos pelos donativos monetários feitos através de centenas de linhas telefónicas não terá chegado a quem mais precisava, uma vez que foi retida pelo ditador Mengistu Haile Mariam, denunciou alguma imprensa.

A BBC reportou que uma fatia dos fundos tinha sido utilizada para a compra de armas, embora posteriormente tenha pedido desculpas públicas pela acusação por não ter encontrado provas após conduzir uma investigação. Bob Geldof, no entanto, manteve sempre que as receitas reverteram a favor dos mais necessitados, tendo controlado a sua distribuição localmente.

Bob Geldof
créditos: AFP

A polémica não impediu que os 20 anos do evento tivessem sido celebrados com outro espetáculo global, o Live 8, em 2005, decorrido nos países do G8 e na África do Sul e novamente empreendido por Geldof e Midge Ure. No Brasil, o impacto do Live Aid foi tão expressivo que instituiu a data 13 de julho como o Dia Mundial do Rock. E a herança na cultura pop vai além da influência na organização de iniciativas musicais interventivas de grandes dimensões, como se viu no fenómeno recente de "Bohemian Rhapsody" (2018), o biopic de Freddie Mercury, cuja sequência da atuação dos Queen no Estádio de Wembley foi das mais celebradas pelos espectadores. O concerto original, que vincou a fase área da banda britânica, é frequentemente aclamado como um dos melhores do Live Aid e pode ser (re)visto abaixo:

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