“Estamos a semear. A marrabenta não vai sucumbir. Esses instrumentos improvisados aí… aquilo é como se fosse um descartável, entrou, passou, saiu. Mas a marrabenta não, veio para ficar”, diferencia, em entrevista à Lusa, depois de ter participado numa oficina para crianças, uma das iniciativas paralelas do Festival Músicas do Mundo (FMM), que hoje termina em Sines.

“Acolhemos a juventude, não tenho nenhum da minha idade que toque comigo”, conta. “São poucos [os jovens], mas estão a dar [continuidade à marrabenta]. Conseguimos modificá-los, já não correm para ‘playbacks’, já sabem vir ao vivo, já é um ponto para nós”, reconhece o músico histórico, que vai atuar hoje, na avenida marginal de Sines, às 02:30, com “o bolso cheio de surpresas”, mas “uma bagagem que não pesa a ninguém”.

António Marcos já passou pelo FMM, integrado no grupo Mabulu, mas agora estreia-se em nome próprio. O homem que construiu uma viola de lata para afugentar os macacos da machamba (horta) da família e assim começou a fazer música, diz que agora – depois de ter sido de tudo um pouco, desde empregado doméstico a pugilista – é “músico de profissão”.

Natural da província de Gaza, recordou os tempos coloniais, em que trabalhou “para os portugueses”, com quem aprendeu “o que é sujo e o que é limpo”.

“Não era fácil, vou ser sincero. O português era outro tipo de coisa. O moçambicano também era outro tipo de coisa, eu mesmo que estou a falar aqui”, reconheceu, contando que uma vez lhe pediram para deixar que um rapaz branco lhe desse um pontapé e ele deixou, para ganhar um escudo em troca.

“Na minha zona de origem, onde nasci, fui o único moço, jovem, que conseguiu comprar um fato para usar com gravata, como trabalhava para um branco que não me queria ver sujo”, relata.

“Tinha que andar com fatura – não recibo, fatura –, que comprei o fato no sítio x e passaram fatura. ‘Ó rapaz, onde arranjou isso? Mostra a fatura’. Tirava do bolso. ‘Vai-te embora, seu preto’. Eu ia”, lembra.

Esse tempo acabou e dele nada subsiste, “nem lá, nem aqui”, garante. Pretos e brancos são agora “amigos”, comem “do mesmo prato”, distingue.

“Não é só Portugal que reconheceu, Moçambique também reconheceu [os erros]. Afinal de contas, eram aqueles [do passado], não estes que estão aqui”, assinala, considerando que, se não tivesse sido possível ultrapassar esse “tempo” para seguir em frente, o português não se teria mantido como língua oficial de Moçambique.

“A guerra acabou, [mas] onde há guerra, uns enriquecem e outros sofrem”, frisa, dizendo que subsiste “um pouco de confusão só no norte. Porém, é preciso não esquecer que se pode fazer a monda à frente, mas “na traseira o capim também nasce”, alerta.

Sobre a catástrofe natural que assolou o país, com a passagem do ciclone Idai, sobretudo em três províncias, Manica, Nampula e Sofala, ainda “é difícil de medir o sofrimento de cada um”, diz.

Frisando que não é político, António Marcos limita-se a constatar que “tem de haver tortas e direitas”: “Se aqui o mar baixa é porque noutro país o mar enche e quando o mar baixa nesse país é porque aqui o mar enche”.

Sobre o impacto da tempestade, diz que o governo moçambicano “não pode aguentar” sozinho. “Aquilo destruiu-se num minuto, o mundo está a ajudar, o Estado não pode aguentar, porque o próprio Estado sofreu”, justifica.

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