"Mati", produzido pelo músico Jori Collignon, demorou pelo menos quatro anos a ser feito, trabalhado e regravado, com Selma Uamusse à procura de uma sonoridade que fosse a soma de tudo o que ela tem sido, desde que começou a cantar aos 18 anos.

Selma Uamusse, 36 anos, nascida em Moçambique e radicada em Portugal desde o final da infância, está ligada ao canto gospel, passou pelo grupo rock WrayGunn, andou pelo jazz, com tributos a Nina Simone, é atriz de teatro e cinema. "Já fiz muitas coisas", como contou à agência Lusa.

"Quando comecei a preparar o meu trabalho a solo, eu não tinha muitas referências sobre como é que eu queria concretizar o que tinha em mente, que era conseguir captar tudo aquilo que era a minha aprendizagem, o meu 'background' soul, gospel, rock, e como é que o poderia canalizar para aquilo que é a minha 'moçambicanidade' também", explicou.

A cantora muniu-se do conhecimento transmitido pelos pais, que vivem em Moçambique, sobre cultura, música, instrumentos tradicionais, sobre dialetos, sempre enquadrados no contexto social e político.

É por isso que "Mati" é interpretado em português, inglês e também em changana ou chope, e as melodias são interpretadas com instrumentos como timbila, mbira, kissange ou gongoma.

O álbum tem dois propósitos, disse. "É uma espécie de grito espiritual sobre amor e sobre uma maneira de estar na vida, que está muito ligada às outras pessoas" e é uma "espécie de laboratório" de sons e melodias de um país do qual diz ter "uma saudade romântica".

Aliás, Selma Uamusse reconhece que tem até uma certa responsabilidade de, vivendo em Portugal, fazer chegar mais conhecimento sobre a cultura de Moçambique, para ultrapassar qualquer visão mais ou menos paternalista pós-colonialista sobre o país.

"O paternalismo aponto-o a Portugal, e todo o processo de colonialismo muito severo e muito duro coloco aí as responsabilidades do lado de Portugal. Em relação ao que não se conhece hoje em dia [da cultura de Moçambique], coloco do lado dos moçambicanos. Os portugueses sabem muito mais sobre Angola, Cabo Verde e até sobre São Tomé do que sobre Moçambique", disse.

A cantora considera que em Moçambique o investimento do país na exportação de música "tem sido muito parco, se calhar porque há outras prioridades. A música, e a cultura, é extremamente rica, mas é muito desconhecida".

"Há falta de incentivo, há falta de apoios, há poucos sítios onde se pode mostrar música, há pouco investimento na exportação da música e isso é um trabalho que todos, como moçambicanos, temos de fazer", disse.

Apesar de "Mati" estar agora a ser editado - sai na sexta-feira - e de se preparar para o apresentar em palco de forma mais completa, depois de passagens recentes por festivais como Bons Sons, Rock in Rio e Med, Selma Uamusse está já embrenhada na gravação de um novo disco.

Além disso, mãe de duas filhas e que abdicou da engenharia para se dedicar às artes, prepara-se ainda para voltar aos palcos, na peça "Amores pós-coloniais", de André Amálio, pela companhia Hotel Europa, que estará em cena em fevereiro no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

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