“Beijam”, “Não Vai” e “Namora Comigo” são alguns dos seus temas de sucesso que muitos já ouviram no Youtube. Fernando Jorge Marta Silva… perdão, Djodje, o nome que os cabo-verdianos dão a quem se chama Jorge (e assim ficou), relembra as dezenas de milhões de visualizações que as músicas já tiveram. A cifra podia servir como cartão-de-visita, mas não é preciso tanto. Djodje é um senhor-rapaz que nasceu com a tocatina no sangue, a tradição que em Cabo Verde junta pequenos e graúdos, família e amigos numa roda-viva de música. O SAPO quis saber mais, pelo que o melhor é partir logo para a conversa.

Contas com três álbuns a solo. “Sempre TC” (2006), “Check-In” (2010) e “Feedback” (2013), aos quais se juntará um novo álbum a sair em breve, mas cujo nome ainda está no segredo dos deuses. De todos eles, qual foi o que custou mais a fazer, o que te roubou mais suor?

O primeiro, sem dúvida [risos]. Foi feito em Cabo Verde, é totalmente acústico, a produção musical esteve a meu cargo e, além mais, só tinha 16 anos. Tive de lidar com músicos, com a falta de patrocínios e ainda ir à escola. Foi cansativo.

E qual o álbum que mais gostaste de criar?

Foram três álbuns lançados em fases diferentes, com estilos diferentes, especialmente o primeiro, o qual nada tem a ver com os outros dois. Estes últimos seguem um caminho mais Pop, com Kizomba e Afro-Pop, e têm mais a ver comigo, enquanto artista e compositor. O primeiro álbum retrata mais o meu gosto pessoal, está muito ligado ao que gosto de ouvir e ao que gostava de fazer. Nele podes escutar mais a soul music, assim como alguma fusão com a música tradicional cabo-verdiana.

Um momento… Estás a querer dizer-me que não compões e cantas no estilo que mais prazer te dá?

Nada disso. Tens de gostar do que estás a fazer e eu gosto muito do que faço. Se não fosse assim, não perdia tempo com isto. Eu simplesmente senti que o caminho a seguir era este, um caminho mais Pop, mais electrónico. Os artistas, muitas vezes, confundem entre aquilo que gostam de ouvir e aquilo para o qual têm mais potencial.

O teu quarto trabalho a solo está quase aí e dele fazem parte três músicas que, entretanto, foste lançando através do Youtube: “Beijam”, “Não Vai” e, mais recentemente, “Namora Comigo”. Não te vou perguntar sobre os milhões de visualizações que todos eles tiveram, apenas se sentes que estás a compor de forma mais madura.

Sim. Acho que é um álbum mais maduro e com maior variedade em termos de estilos. À medida que o tempo passa, deixa de fazer sentido que sejas catalogado como sendo um artista mais de Kizomba, ou então mais de R&B ou outro estilo qualquer. Cada vez mais, o que importa é a música. Claro que tens de ter uma sonoridade tua, que te identifique enquanto artista, mas o que mais importa é fazeres música. É por isso que o meu novo disco vai ter Kizomba, Afro-Pop, Dance Hall e música acústica. Quis fazer uma fusão de tudo.

“Em Cabo Verde e Portugal existe o mito de que uma carreira musical é algo que não tem futuro”

Nasceste em Cabo Verde mas vieste ainda jovem para Portugal. O que te trouxe até cá?

Vivi em Cabo Verde até aos meus 17 anos. Vim para Portugal em 2007, para frequentar o curso de audiovisual e multimédia na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa… mas a meio do caminho apercebi-me que não queria aquilo. Preferi enveredar por uma formação que estivesse mais dentro da área da música.

Assentaste praça em Lisboa, portanto…

Sim. Vivo na zona de Benfica. Mas vou muitas vezes a Cabo Verde, para espectáculos, fazer férias e visitar a família. É perto, somente quatro horas de voo. Tenho um pé cá e outro lá.

Vens de uma família que tem a música nas veias. O teu pai foi guitarrista de uma das bandas mais conhecidas de Cabo Verde, os Tubarões, e a tua mãe é oriunda de um meio cheio de cantores e compositores, a família Marta. De que forma eles influenciaram a tua carreira?

Em Cabo Verde temos uma tradição que é a “tocatina”, em que no final da semana a família junta-se toda à volta de uma mesa, com comes e bebes, e onde nunca falta a música. Foi nesse meio que eu nasci. Cresci a ouvir os meus tios e a minha mãe a cantar, enquanto os restantes familiares tocavam e também cantavam. Não houve fuga possível. Desde criança que estou cercado de música.

Mas os teus pais fizeram questão que seguisses uma carreira musical?

Foi algo que surgiu naturalmente. Não me obrigaram a nada, nem fizeram muita pressão, mas sempre tive o apoio e a força deles para seguir com esta carreira em Cabo Verde. Aqui, em Portugal, existe o mito de que a carreira musical é algo que não dá ou não tem futuro, e em Cabo Verde essa ideia é ainda maior.

Fizeste parte dos TC, uma banda que, basicamente, era constituído por garotos. Apesar de tudo, conseguiram ter algum sucesso em Cabo Verde e até lá fora, junto da “diáspora” de cabo-verdianos.

A banda era formada por familiares e amigos. Eu, o meu irmão, o meu primo, o Ricky Boy, e mais dois amigos. A banda surgiu na varanda de casa. Lá está, graças àquele ambiente familiar de que falei, onde se tocava guitarra e cantava. Acabámos por ter em Cabo Verde e noutros países de língua portuguesa uma boa repercussão, com alguns singles de sucesso, como o “Voltar”, que foi a primeira música que gravámos [em 2001] e que foi um enorme sucesso no país e junto da comunidade cabo-verdiana em Portugal.

Quantos anos tinhas aquando do lançamento do single?

Apenas 12 anos!

Foi aí que começaste a sentir o peso da fama, ou nem por isso?

A vantagem de ter nascido em Cabo Verde é que por mais famoso que sejas, do sucesso que tenhas, chega-se a um determinado ponto em que é tudo normal e tranquilo. Estás na rua, és reconhecido, mas não é nada que te faça tirar os pés do chão.

Olhando para trás, que forma aquilo que és hoje, como artista, se deve aos TC?

Aprendi muito com eles, apesar de na altura sermos todos adolescentes. Sempre tivemos os pés bem assentes no chão. Fomos bem aconselhados pelos familiares e amigos, e a banda ajudou-me sempre a ver que é preciso trabalhar, trabalhar e trabalhar… isto se quisermos chegar a algum lado. Ensaiávamos todos os dias, mesmo quando não tínhamos qualquer concerto ou data para ir tocar.

“Quem me ouve tem de ser uma pessoa apaixonada e emotiva”

Lançaste a tua própria editora, a Broda Musics, com 20 anos. Mas quem é que se lembra, com essa idade, de fundar e ficar à frente de um projecto desses?

Há muito tempo que era um sonho meu, desde o tempo do Secundário em Cabo Verde. Foi precisamente por isso que formei-me em Produção e Marketing Musical em Portugal. As coisas adiantaram-se em 2009, quando o Ricky Boy resolveu gravar o seu primeiro álbum a solo e lembrámo-nos de criar uma editora para depois lançar o disco. Entretanto, os anos passaram e por aqui continuamos.

Dito dessa forma, até parece que é fácil lançar uma editora musical em Portugal…

Não foi fácil, mas também não acho que tenha sido complicado. Claro que há barreiras, e vamos aprendendo, mas as coisas têm corrido bem. De 2009 para cá acabámos por lançar mais oito discos, e temos, neste momento, cinco artistas. Passos curtos, mas editora está a crescer.

Tens 28 anos…

Estou ficar velho… [risos]

Eu diria que ainda és muito jovem. Mas parece que já tens a experiência, dentro do mundo da música, de alguém que está perto dos 40. Sentes isso?

Sim, já estou aqui há algum tempo. Aprendi muita coisa, mas ainda há muito mais para aprender. Estou sempre a apanhar coisas novas, a tentar encontrar novas formas de lidar com tudo, tanto para a minha carreira como para a parte da produção musical. Quando atinges um determinado nível, a ideia não pode passar por dizer “cheguei aqui e já chega”. Tens de ver o que vem a seguir, e para chegar ao próximo nível há um constante processo de aprendizagem.

Lanço-te um desafio. Consegues fazer um perfil da pessoa típica que ouve o que escreves e cantas?

Essa pessoa tem de ser romântica, alguém que viva intensamente o amor, pois as minhas músicas são, sobretudo, sobre isso. Tem, igualmente, de ser alguém alegre, que goste de dançar. É uma pessoa apaixonada e emotiva, não interessando se é homem ou mulher.

“As críticas [negativas] mexem comigo, mas a minha defesa, logo de seguida, é pensar que aquilo não faz sentido”

As redes sociais, nomeadamente o Facebook, o Snapchat, o Instagram e o Youtube, parecem ser uma aposta tua, pelo menos a crer nos números que nos dás. Um total de 300 mil seguidores e 50 milhões de visualizações só no canal de partilhas de vídeo. Consegues gerir bem a tua imagem nestes canais? Não é fácil, nos dias de hoje.

Pois não. É bastante ténue a linha entre o “expor” a tua pessoa e “mostrar” o teu trabalho. Desde que consigamos meter na balança aquilo que vale a pena mostrar aos fãs e o que não vale (aquilo que não vai trazer nada de positivo), acho que conseguimos gerir bem. As redes sociais revelam o lado mais pessoal do artista, coisa que tento fazer, mas também colocam-te em contacto directo com os teus fãs, e pelos comentários e pelos “likes” que fazem consegues depois perceber o que gostam e não gostam.

Mas as redes sociais estão igualmente cheias de críticas muito ferozes e comentários nada simpáticos. Também os lês?

Costumo ler…

E mexem contigo?

Claro, claro! Pode mexer comigo no momento em que leio a crítica, mas a minha defesa, logo de seguida, é para pensar que aquilo não faz sentido, que a pessoa apenas só quer criticar e está a falar mal somente para destruir. Quando é assim, tento esquecer o negativo e focar-me mais no positivo, nas pessoas que gostam do que faço, ou que, quando fazem uma crítica, são construtivas e querem ajudar-te a melhorar.

Já actuaste um pouco por todo o lado: Portugal, França, Suíça, Luxemburgo, Holanda, República Checa, EUA e Brasil, além de outros países africanos como Angola e São Tomé e Príncipe. Está-me a escapar algum?

Ainda me falta ir a Moçambique! Mas já está previsto. Eu vou a onde estão os cabo-verdianos e, também, a onde há portugueses, principalmente aqui na Europa. Os espectáculos têm sido para quem faz parte da comunidade lusófona.

Estão previstos, mais concertos em Portugal, além do que vai ter lugar no Coliseu de Lisboa, a 11 de Março?

A seguir ao Coliseu vou estar no Caparica Primavera Surf Fest, assim como no Sol da Caparica. Depois do novo álbum sair, e espero que isso aconteça entre Abril ou Maio, estão previstos novos espectáculos. Ou seja, vou andar por aí, com viagens a Cabo Verde pelo meio.

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