“Passaram-se 15 anos porque… porque não havia tempo para entrar num estúdio e acabar a gravação do álbum. Estávamos sempre a viajar, com muitas turnés pelo mundo. Quando chegávamos a Portugal entrávamos então no estúdio, gravávamos um bocadinho e depois lá voltávamos a viajar. Era sempre assim”, dispara Tito Paris, o mindelense de 54 anos que lançou em Junho passado “Mim Ê Bô”, álbum que sucede a “Guilhermina”, lançado no distante ano de 2002.

Morna, coladeira e funaná. Os velhos ritmos de Tito, que confundem-se com os típicos de Cabo Verde, continuam presentes no novo trabalho, mas quem escuta o álbum distingue uma outra sonoridade: “ traz os sons dos países lusófonos, envolve mais instrumentos, além do violão e acordeão”, destrinça. Se dúvidas há, basta ver aqui o videoclip do single “Mim Ê Bô".

A música que Bana quis voltar a cantar antes de morrer

O passado, as memórias, essas continuam e nunca desaparecem. Uma das faixas, "Resposta de Segredo Cu Mar", é ela própria uma história com mais de oito décadas a que a inconfundível voz de Bana deu forma, pouco antes de morrer.

“Quando fui vê-lo ao hospital [faleceria em 2013] ele diz-me que quer fazer uma parceria comigo, com uma música de 1932, do B.Leza. Era o Resposta de Segredo Cu Mar. O Bana tinha pouco mais de 30 anos quando gravou essa música [saiu no álbum Nha Terra, de 1965]. Eu avisei que era uma música difícil, mas ele olhou para mim e disse para marcar o estúdio, para que se gravasse a música antes de falecer. Entretanto, acabou por sair do hospital e foi para o estúdio, onde cantou e gravou. Um ano depois teve uma recaída, foi para o hospital e acabou por morrer.”

Boss AC e Zeca Baleiro são os outros dois nomes que se juntaram ao artista, marcando presença nas músicas “Bô” e “Santiago Amor”, respetivamente. O primeiro, considerado um dos pioneiros do hip hop português, é como “um irmão mais novo”: ambos nasceram no Mindelo, além de que Tito cresceu com os pais do rapper. Uma aliança natural.

“O Zeca Baleiro, que é brasileiro [do estado do Maranhão], eu conheci-o há uns 15 anos em Cabo Verde. Ele tocava em bares e ficámos amigos. Acabámos por trocar experiências”, recorda. Quando voltei a Portugal recebi uma caixa que ele enviou do Brasil, com todos os discos dele. Para este álbum enviei-lhe um e-mail a dizer que gostava que participasse, e ele respondeu-me com uma música com a voz dele, em crioulo. Gostei muito. A interpretação dele é fantástica.”

“Um jovem angolano a cantar tem sonoridade igual ao de um de Cabo Verde”

Ir ao encontro das raízes musicais em que nascemos ou procurar o sucesso a todo o custo? A trinca é velha e nunca parece levar a uma conclusão, mas, para o cantor e instrumentalista cabo-verdiano, as novas modas musicais que vão surgindo, adotadas pelas novas gerações de músicos, mais parecem uma amálgama indiscernível. Tem ele medo de se tornar um dinossauro, em vias de extinção, da música de Cabo Verde?

“Não tenho esse receio. Eu sou um cantor cabo-verdiano que canta nos palcos mais emblemáticos do mundo. Quem toca um bom clássico de Cabo Verde, uma música de Cesária Évora ou do Tito Paris, consegue andar pelo mundo fora, em grandes palcos e a cantar poemas, acompanhado de uma grande orquestra. Nem nunca ninguém me disse que eu tinha de trazer fulano ou Beltrano para cantar, de modo a ter mais pessoas”, responde.

“Não estou a dizer que os outros não têm credibilidade musical. Têm e eu respeito-os”, acrescenta. “Mas, e repare neste pormenor, se colocarmos um jovem angolano a cantar a sonoridade é igual ao de um de Cabo Verde. E se meter, também, um de nacionalidade portuguesa é exatamente a mesma coisa. Os músicos que os acompanham também são os mesmos. Esta é a verdade.”

Se assim é, o que fazer? “Os jovens cabo-verdianos têm de ter responsabilidade e perder complexos em relação às raízes da sua terra, à música de Cabo Verde. No Brasil, os cantores de maior gabarito só chegaram onde estão após cantar músicas de Caetano Veloso, Vinícius de Moraes ou Gilberto Gil. Em Portugal, por exemplo, quem canta fado, neste momento, são os jovens.”

Os melhores momentos que guarda no baú da memória?

“Lembro-me de quando fui tocar às Nações Unidas, pelo aniversário dos seus 50 anos, em 1995, e fui recebido pelo Bill Clinton [presidente dos Estados Unidos, à época]. Estive também com o secretário-geral Kofi Annan, com quem fumei um cigarro. Até bebi um whisky no gabinete dele. É algo que ficou marcado na minha vida. Também não me esqueço de quando estive na assinatura do Tratado da União Europeia [corria o ano de 1992], em Maastricht.”

Mais recentemente, no passado dia 8 de abril, Tito Paris foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem do Mérito pelo Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa. Outro momento que guardou para sempre e “uma honra que recebi com muita alegria”, confessa.

Apesar de toda a fama, o aviso: “Eu não me esqueço de onde vim. Ainda hoje, quando chego a Cabo Verde, pego nos meus amigos de infância e vamos pescar, fazer almoçaradas, tocar violão. A minha infância está em Cabo Verde.”

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